Com ‘pior dor do mundo’, idosa vive no improviso após ser desalojada pela tragédia da chuva em Juiz de Fora
16/04/2026
(Foto: Reprodução) Idosa com 'pior dor do mundo' teve casa invadida por lama durante temporal em Juiz de Fora
Luiza Sudré/g1
Até a última semana de fevereiro, Maria Teresa do Vale Oliveira, de 75 anos, já travava uma difícil batalha diária: conviver com a neuralgia do trigêmeo, uma condição neurológica que provoca dores tão intensas que são descritas por médicos como a 'pior dor do mundo'.
Desde o temporal que atingiu Juiz de Fora em 23 de fevereiro e deixou 66 mortos, a situação piorou. Além da dor, Maria passou a lidar com o trauma da tragédia, que desalojou centenas de pessoas, incluindo ela e a família. A aposentada foi obrigada a deixar a casa onde viveu por mais de 40 anos, no bairro Monte Castelo.
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A casa foi atingida por alagamento e enxurrada de lama. Apesar de a estrutura continuar de pé, não há confirmação sobre possíveis danos. Por isso, ela ainda vive sem saber quando poderá voltar.
"A chuva levou a vida que construí ali"
Maria Teresa com os filhos Flávia e Ricardo
Luiza Sudré/g1
Vida após o temporal
Depois do desastre, Maria Teresa passou a viver de forma improvisada. A família ficou por algumas horas na Escola Municipal Paulo Rogério, depois foi para a casa de parentes e, por fim, se mudou para um imóvel alugado, onde vive atualmente.
A poucos metros da antiga residência, ela tenta manter a rotina em um espaço que carece das adaptações que a saúde exige.
O apartamento é marcado pelo improviso: móveis emprestados, poucos itens recuperados entre sacolas e malas com o que restou da antiga vida. Ela e a filha Flávia Aparecida Ruels de Oliveira dividem a mesma cama.
As despesas aumentaram e a conta não fecha. Além do aluguel, os gastos com os mais de dez comprimidos que precisa tomar por dia passam de R$ 500 por mês. Segundo a família, o medicamento mais eficaz não é fornecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Família mora em imóvel alugado
Luiza Sudré/g1
Memórias do dia da tragédia
Nas últimas semanas, ela insistiu em voltar à antiga casa. Queria ver o que restou. Encontrou um ambiente ainda úmido e frio, com marcas de lama no chão e nas paredes. Nem mesmo a retirada de sete caminhões de barro foi capaz de apagar a linha que indica até onde a água chegou.
A cena trouxe de volta as memórias do dia da enchente. A família lembra que a água começou a subir rapidamente dentro da casa. A força era tanta que um botijão de gás chegou a boiar.
Depois, a lama invadiu o imóvel, destruiu móveis e deixou marcas nas paredes. A saída só aconteceu após um alerta da Defesa Civil e a ação rápida do filho, Ricardo Ruela de Oliveira, que é militar e estava na cidade naquela semana. Por conta da dificuldade de locomoção, foi um resgate difícil.
“Meu filho chegou rápido e tirou a gente de dentro de casa. Se a gente tivesse ficado, talvez teria morrido”, contou.
Casa foi tomada pela lama durante temporal em Juiz de Fora
Luiza Sudre/g1
Entre os destroços, uma das perdas mais sentidas foi a da máquina de costura. O equipamento não era apenas fonte de renda, mas, para Maria Teresa, era afeto e terapia.
“Agora nunca mais vou poder fazer, não tenho condições de comprar outra”, lamentou.
À espera de amparo e respostas
Casa foi atingida por enchente e enxurrada de lama
Luiza Sudré/g1
A família de Maria Teresa afirma que teve o Auxílio Reconstrução, no valor de R$ 7,3 mil, aprovado e agora aguarda o depósito. No entanto, ainda não recebeu retorno sobre o pagamento do benefício municipal de R$ 800 destinado às famílias atingidas.
Segundo o filho, o cadastro foi feito em diferentes etapas. Inicialmente, a irmã realizou um registro no abrigo para onde a família foi encaminhada após a enchente. No entanto, ele afirma que não houve geração de protocolo nem entrega de comprovante desse primeiro atendimento.
“Disseram que minha mãe e minha irmã já fariam jus ao benefício, mas até agora não tivemos retorno”, relatou o filho.
De acordo com a Prefeitura de Juiz de Fora, o auxílio é destinado apenas a famílias inscritas no CadÚnico e com residências destruídas ou interditadas. O benefício é voltado a quem já estava cadastrado no programa até 9 de janeiro — o que não era o caso de Maria Teresa.
Idosa sofre com marcas emocionais após a enchente
Desde a tragédia e a mudança de rotina e hábito, os filhos dizem que ela não é mais a mesma.
"As lembranças não vão embora. Quando escurece, eu já fico preocupada, tenho medo de outra chuva. Quando o alarme toca, meu coração dispara. Só penso na minha casa, se a água vai entrar de novo".
Apesar de tudo, ela não reclama. Agradece por estar viva e por ainda ter a família. Mas sente falta da casa, do espaço e da autonomia que construiu ao longo de décadas.
"Eu queria mesmo era estar na minha casa. A gente está aqui, mas não é o nosso lugar."
Ela espera pela liberação da Defesa Civil para voltar. Enquanto isso, segue vivendo com o que restou.
Idosa com 'pior dor do mundo' teve casa invadida por lama durante temporal em Juiz de Fora
Luiza Sudré/g1
A Prefeitura informou que as vistorias e os laudos das casas afetadas seguem critérios técnicos de prioridade, diante do alto volume de ocorrências na cidade, e que os documentos são emitidos após a conclusão das avaliações em campo.
Desde o dia 23 de fevereiro, a tragédia que afetou Juiz de Fora, a Defesa Civil realizou desde o dia 23 de fevereiro, 6.511 vistorias, o equivalente a oito anos de vistorias da Defesa Civil fora do estado de calamidade.
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